Feirão do Automóvel de Jundiaí: tradição de 30 anos interrompida
Criado por Reinaldo Prata no início dos anos 1990, evento reuniu compradores e vendedores durante décadas, foi interrompido na pandemia e teve uma tentativa de retomada em 2022; antigos frequentadores ainda mantêm viva parte da tradição.
Durante aproximadamente três décadas, milhares de jundiaienses se acostumaram a uma cena típica das manhãs de domingo: carros alinhados, placas de “vende-se”, famílias caminhando entre os veículos e compradores negociando diretamente com seus proprietários.
Era o Feirão do Automóvel de Jundiaí, criado por Reinaldo Prata a partir de uma ideia que ele conheceu em São Paulo e decidiu trazer para a cidade.
Muito antes de marketplaces, aplicativos e anúncios digitais transformarem a maneira de vender um automóvel, o Feirão funcionava quase como um grande classificado presencial.
Não era um feirão de concessionárias. A essência estava justamente na negociação direta: o proprietário levava seu carro, encontrava o comprador e negociava pessoalmente.
E funcionou por décadas.
A inspiração veio do Anhembi
Em um vídeo publicitário publicado na página do Feirão em 20 de janeiro de 2017, Reinaldo contou como tudo começou.
Na ocasião, afirmou que negociava carros havia cerca de 25 anos, frequentava o Anhembi, em São Paulo, e decidiu trazer aquele modelo de evento para Jundiaí.
O relato ajuda a estabelecer a origem da tradição. Se Reinaldo já falava em aproximadamente 25 anos de atividade em 2017, o início do Feirão remonta ao começo da década de 1990.
A inspiração era a tradicional feira paulistana que atualmente leva o nome de Feirão AutoShow, criada em 1972.
Cinco endereços e uma mesma tradição
Ao longo de sua história, o Feirão passou por diferentes pontos de Jundiaí até encontrar na Avenida Prefeito Luiz Latorre seu endereço mais conhecido.
Entre os locais utilizados estiveram Rua Lacerda Franco, 88; Avenida Quatorze de Dezembro, 475; Rua do Rosário, 21; Avenida Prefeito Luiz Latorre, 4.469; e, posteriormente, Avenida Prefeito Luiz Latorre, 5.300, no estacionamento da Faculdade Anhanguera.
Documentação da Prefeitura de Jundiaí ajuda a mostrar a dimensão alcançada pelo evento.
Em 2013, parecer municipal identificava Reinaldo Prata como responsável pelo Feirão do Automóvel de Jundiaí, realizado aos domingos, das 7h às 13h, na Avenida Prefeito Luiz Latorre, 4.469.
O terreno possuía 7.655,75 metros quadrados, com espaços demarcados para veículos e circulação. A finalidade registrada era a exposição para compra, venda ou troca de veículos pelos proprietários ou responsáveis.
Era exatamente o modelo que marcou a história do Feirão: aproximar quem queria vender de quem queria comprar.
Negociação olho no olho
Uma reportagem em vídeo de 2017 ajuda a explicar por que o modelo conseguiu sobreviver mesmo com o crescimento da internet.
O Feirão não vendia os veículos. A negociação era realizada diretamente entre comprador e proprietário.
A administração oferecia assistência para consultas de documentação, multas e eventuais restrições, além de auxiliar na formalização inicial do negócio.
Para muitos frequentadores, a vantagem estava justamente em poder encontrar vários veículos em um único espaço e, principalmente, ver pessoalmente o carro antes de fechar negócio.
O Feirão também reunia histórias pessoais. Carros que permaneceram durante anos com uma mesma família encontravam novos proprietários ali.
Mais do que um estacionamento cheio de veículos, o local havia se transformado em parte da rotina dominical da cidade.
A pandemia interrompeu a tradição
Depois de atravessar mudanças econômicas, transformações no mercado automobilístico e a própria revolução provocada pela internet, foi a pandemia de Covid-19 que interrompeu o Feirão.
Segundo fonte ouvida pela reportagem, as restrições impostas naquele período impediram a continuidade do evento. A fonte afirma que, mesmo quando feirões de outras cidades começaram a retornar com protocolos sanitários, Reinaldo não conseguiu autorização para retomar as atividades em Jundiaí.
Essa versão ainda precisa ser confrontada com a Prefeitura de Jundiaí, para que o município possa esclarecer quais regras e restrições estavam vigentes naquele período.
Sem conseguir realizar o evento e mantendo os custos de um terreno alugado, Reinaldo acabou entregando o imóvel.
A longa passagem do Feirão pela Luiz Latorre chegava ao fim.
A tentativa de voltar
Reinaldo ainda tentou recomeçar.
Em 14 de agosto de 2022, anunciou nas redes sociais a volta do Feirão, desta vez no estacionamento da Faculdade Anhanguera, também na Avenida Luiz Latorre.
O anúncio prometia um espaço mais amplo, sanitários, praça de alimentação e estrutura para a realização das negociações.
Mas a retomada não se sustentou.
Segundo relatos de participantes, havia reclamações sobre o preço cobrado para colocar os veículos à venda. Reinaldo, por sua vez, argumentava que o custo do aluguel do novo espaço impossibilitava a cobrança de valores menores.
A conta deixou de fechar.
E o Feirão novamente encerrou as atividades.
Em outras cidades, a tradição sobreviveu
O fim do Feirão de Jundiaí não significa que esse modelo de comércio tenha desaparecido.
Em Indaiatuba, há histórico de utilização de espaço público aos domingos para uma feira de carros usados.
Em São Paulo, o AutoShow, que inspirou a experiência jundiaiense, atravessou as mudanças do mercado e continua reunindo compradores e vendedores.
Belo Horizonte também preservou sua tradicional feira de veículos no complexo do Mineirão.
São exemplos de que, mesmo depois de sites, aplicativos e redes sociais transformarem o mercado de usados, ainda existe espaço para a negociação presencial.
O Feirão acabou. Os carros ficaram
Com o fim do evento, alguns antigos frequentadores passaram a procurar alternativas em cidades como Indaiatuba e São Paulo.
Outros, porém, permaneceram na Luiz Latorre.
Quem passa pela avenida aos domingos ainda pode encontrar veículos particulares estacionados nas proximidades de onde funcionava o antigo Feirão, com proprietários tentando encontrar compradores.
Não existe mais a estrutura que concentrava centenas de veículos em um único espaço. O terreno que durante anos recebeu carros populares, antigos e seminovos deu lugar a outro empreendimento.
Mas alguns vendedores continuam aparecendo na avenida.
É como se uma pequena parte do Feirão se recusasse a desaparecer.
Entre antigos participantes existe o desejo de que Jundiaí volte a contar com um espaço destinado à negociação de veículos entre particulares.
Durante aproximadamente 30 anos, a cidade teve aos domingos sua própria “feira livre do automóvel”. Uma tradição que começou no início dos anos 1990, passou por diferentes endereços, resistiu à chegada da internet e acabou interrompida após a pandemia.
Os carros que ainda aparecem na Luiz Latorre aos domingos talvez sejam os últimos vestígios dessa história.
Uma tradição interrompida — mas, aparentemente, ainda não esquecida.



