Segunda-feira, 26 de outubro de 2026
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DESAFIO HISTÓRICO

De Bigardi a Martinelli: as mazelas sociais que persistiram durante os oito anos da gestão Luiz Fernando Machado

Registros de mais de uma década mostram que o problema já existia antes de 2017, foi alvo de medidas controversas e acompanhamento do Ministério Público durante a gestão Machado e segue como desafio para o governo Martinelli.

Jaime Lima
· Jundiaí
Foto: Fotógrafos PMJ

A presença de pessoas em situação de rua voltou ao centro do debate público em Jundiaí. Reportagens, publicações nas redes sociais e manifestações políticas recentes apontam o problema e cobram respostas do governo Gustavo Martinelli.

Uma volta aos arquivos, porém, mostra que a situação está longe de ser nova.

Há registros de reclamações, pressão sobre os serviços de atendimento e tentativas do poder público de enfrentar o problema antes, durante e depois dos oito anos da gestão Luiz Fernando Machado, entre 2017 e 2024.

O histórico envolve diferentes administrações municipais e revela um desafio que atravessou mudanças políticas, intervenções urbanas, ampliação de serviços assistenciais e procedimentos do Ministério Público.

O problema já existia antes de Machado

Em abril de 2013, primeiro ano do governo Pedro Bigardi, uma operação da Guarda Municipal e da Polícia Civil abordou 75 pessoas no Centro, Vila Lacerda, Vila Aparecida, Ponte São João, Vianelo e Jundiainópolis.

Na ocasião, o comandante da Guarda Municipal afirmava que a corporação recebia pelo menos 15 reclamações por mês relacionadas à população em situação de rua.

Outros registros se sucederam.

Em 2014, operações voltaram a identificar concentração de pessoas no Centro e no Terminal Central.

Em março de 2016, uma publicação já descrevia grande presença de pessoas em situação de rua na região da Catedral.

Os episódios demonstram que a situação já provocava preocupação pública durante a administração Bigardi, antes da chegada de Luiz Fernando Machado à Prefeitura.

Crítico dos serviços municipais foi contratado pela gestão seguinte

Em novembro de 2016, às vésperas do fim do governo Bigardi, o especialista em dependência química Valter Henrique Schüller descrevia pessoas vivendo sob pontes e pedindo dinheiro nos semáforos.

Também citava pontos de consumo de drogas próximos ao Maxi Shopping e na Vila Aparecida e defendia que a dependência química fosse tratada como problema de saúde pública.

Ao falar sobre a resposta do poder público, Schüller foi direto:

“Os serviços que a Prefeitura de Jundiaí oferece hoje são serviços ineficazes.”

Também argumentava que entregar dinheiro nos semáforos poderia contribuir para alimentar a dependência química.

Quatro meses depois, já na administração Luiz Fernando Machado, Schüller foi nomeado para um cargo comissionado de Assessor Municipal II na Casa Civil.

A nomeação acrescenta um elemento à trajetória do debate local: um crítico dos serviços municipais passou a integrar a administração seguinte.

Mendicância chegou à legislação municipal e ao Supremo

Em 2018, a gestão Machado tentou enfrentar parte das atividades realizadas nas ruas também pela legislação.

A Lei Municipal nº 8.917 estabeleceu regras e restrições para atividades em espaços públicos que alcançavam situações de pedido de auxílio financeiro.

A mendicância, porém, havia deixado de ser contravenção penal no país em 2009, quando a Lei Federal nº 11.983 revogou o artigo 60 da Lei das Contravenções Penais.

A legislação de Jundiaí acabou contestada judicialmente e chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Em outubro de 2018, o ministro Edson Fachin afastou parcialmente, para os autores de um habeas corpus, a aplicação de dispositivo da lei municipal que permitia condução coercitiva em determinadas circunstâncias.

O episódio colocou no debate os limites da atuação do poder público sobre pessoas que permanecem em espaços públicos e a necessidade de observar direitos e garantias individuais.

Pedras para impedir permanência provocaram críticas

O problema continuou presente durante o segundo mandato de Machado.

Em fevereiro de 2022, a Prefeitura instalou dezenas de pedras no Complexo da Fonte, na Avenida Nove de Julho.

Segundo a administração municipal, o local acumulava entulho e havia se tornado ponto de consumo de drogas.

A instalação provocou reação.

Um ativista social foi preso após retirar as pedras com uma marreta. Posteriormente, a própria Prefeitura removeu as estruturas.

Na cobertura do episódio, um jornalista questionou a solução adotada:

“Isso é um problema estatal, um problema do município, tem que ser resolvido, a gente não pode ter aversão a essas pessoas, causar esse distanciamento.”

Na sequência, outro jornalista resumiu:

“Tem que acolher, não pode evitar.”

O episódio tornou-se um dos exemplos mais visíveis das controvérsias envolvendo intervenções em espaços públicos e a presença de pessoas em situação de rua durante a administração Machado.

Atendimentos no Centro Pop aumentaram

Naquele período, a pressão sobre a rede de atendimento também aparecia nos números.

Em 2021, 31% das pessoas em situação de rua identificadas estavam em Jundiaí havia menos de 30 dias.

A média mensal de atendimentos do Centro Pop passou de 231 em 2020 para 264 em 2021 e 292 em 2022.

Entre 2021 e 2022, a alta foi de aproximadamente 10,6%.

Os números, entretanto, precisam ser interpretados corretamente.

Atendimentos não correspondem necessariamente à quantidade total de pessoas vivendo nas ruas. Uma mesma pessoa pode utilizar o serviço diversas vezes, e o aumento dos registros também pode refletir mudanças na procura ou na capacidade de atendimento.

Ainda assim, a série demonstra uma demanda crescente pelos serviços especializados naquele intervalo.

Ministério Público acompanhava situação desde 2019

As condições de atendimento à população em situação de rua também passaram a ser acompanhadas pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP).

A apuração teve início em 2019, durante o primeiro mandato de Luiz Fernando Machado, e se estendeu pelos anos seguintes.

Em 2023, o MPSP tornou pública a investigação sobre supostas falhas no funcionamento do Centro Pop.

O caso posteriormente resultou em Ação Civil Pública e, já na gestão Martinelli, a Justiça determinou a adequação do quadro de profissionais do equipamento aos parâmetros do Sistema Único de Assistência Social (SUAS).

Paralelamente, a administração Machado adotou medidas para ampliar a Rede Rua.

O Serviço Especializado de Abordagem Social (SEAS) passou a contar com três equipes para atendimento 24 horas.

Em 2023, começaram as obras de uma nova sede do Centro Pop, com investimento de aproximadamente R$ 3,75 milhões.

A nova unidade, inicialmente prevista para ser concluída em seis meses, atravessou o fim da administração Machado sem ser entregue.

Em março de 2025, já no governo Martinelli, a obra estava paralisada e sem previsão de conclusão.

O histórico demonstra que, embora tenham ocorrido investimentos e ampliação de serviços, parte dos problemas estruturais permaneceu sem solução até a troca de governo.

Problema também sofre influência de fora de Jundiaí

A trajetória mostra ainda que nem todos os fatores que influenciam a presença de pessoas em situação de rua estão sob controle do município.

Em 2022, dados divulgados a partir da Operação Noites Frias apontavam que 84,8% das pessoas abordadas declaravam origem fora de Jundiaí.

O percentual corresponde ao público daquele levantamento e não pode ser automaticamente aplicado a toda a população em situação de rua da cidade.

A discussão ganhou força posteriormente com as intervenções na Cracolândia paulistana.

Em maio de 2025, durante o esvaziamento da região na capital, o Centro Pop de Jundiaí registrou aumento pontual na chegada de pessoas em situação de rua vindas de São Paulo, principalmente em busca de recâmbio para outros municípios ou estados.

Em 2026, a dispersão da Cracolândia voltou a aparecer no debate local como um dos possíveis fatores externos relacionados à situação observada em Jundiaí.

A hipótese, entretanto, não é consenso.

O Governo do Estado contestou a existência de uma migração organizada de usuários da Cracolândia para o município.

Assim, embora os deslocamentos entre cidades integrem a discussão, os dados disponíveis não permitem atribuir a situação de Jundiaí exclusivamente a movimentos originados na capital.

Gestão Martinelli reforça estrutura

Já na gestão Gustavo Martinelli, algumas medidas foram adotadas para ampliar a resposta do município.

O atual Centro Pop passou por melhorias e teve sua equipe reforçada.

Em agosto de 2025, o Conselho Municipal de Assistência Social registrou a chegada de novos profissionais ao equipamento.

A reestruturação previa psicólogos, assistentes sociais, orientadores e educador social.

A administração também retomou as obras da nova sede do Centro Pop, iniciadas em 2023 e posteriormente paralisadas.

Outra mudança ocorreu em 2026, com a criação do Núcleo de Ordem Urbana (NOU), reunindo Assistência Social, Saúde, Segurança e Serviços Públicos em ações integradas nos locais de maior concentração de pessoas em situação de rua.

As medidas ampliam a resposta do município, mas não significam que o problema esteja solucionado.

A permanência das reclamações e das abordagens nas ruas demonstra que o desafio continua.

Um problema que atravessou governos

Os registros disponíveis não permitem afirmar que o número de pessoas em situação de rua tenha crescido continuamente durante todos esses anos.

Levantamentos, atendimentos, abordagens e recâmbios medem situações diferentes e não formam uma série histórica diretamente comparável.

Eles permitem, entretanto, uma conclusão mais simples:

O problema não nasceu na gestão Martinelli.

Já provocava reclamações durante Pedro Bigardi; atravessou os oito anos de Luiz Fernando Machado, período em que foi objeto de legislação municipal, intervenções em espaços públicos, ampliação da rede assistencial e acompanhamento do Ministério Público; e chegou à administração Gustavo Martinelli ainda sem uma solução definitiva.

Em março de 2026, ao apresentar proposta de uma Política Municipal de Atendimento Integrado à População em Situação de Rua, a vereadora Quezia de Lucca classificou a situação como um “problema crônico” e apontou agravamento especialmente na Ponte São João, além do Centro e outros bairros.

A expressão resume o que os registros de mais de uma década revelam.

A presença de pessoas em situação de rua é um desafio crônico de Jundiaí, atravessou diferentes governos e continua à espera de respostas capazes de romper esse ciclo.

Mais do que identificar em qual administração surgiram as reclamações, o histórico mostra a necessidade de avaliar quais políticas produziram resultados, quais medidas foram insuficientes e o que ainda precisa ser feito para enfrentar uma situação que persiste há mais de uma década.

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